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terça-feira, 3 de maio de 2011

Entrevista a Jorge Ribeiro

Na sequência das publicações anteriores resolvi propor uma entrevista ao meu amigo alpinista Jorge Ribeiro, que acedeu logo a responder às minhas questões sobre montanhas e aventuras.




Fica então aqui a entrevista:


1 - Nome, idade e profissão e naturalidade?

Jorge Ribeiro, nascido sob o signo do Leão, 55 anos de idade, psicólogo clínico e psicoterapeuta, nascido em Alfama- freguesia de Santo Estêvão- Lisboa

2 - Desde quando surgiu este fascínio pelas grandes montanhas e qual foi a tua inspiração para esta "sede de chegar mais alto"?


Estou em crer que fascínio pelas nossas grandes montanhas vem dos tempos da adolescência. O sonho de chegar mais alto e desde aí contemplar o Mundo sempre acompanha a rebeldia da alma adolescente. Digamos que a atracção pelo novo e pelo desconhecido do grande mundo se liga a uma parte mais activa e ainda selvagem do nosso ser e contraria essa tendência mais conservadora de adaptação ao nosso pequeno mundo que traz consigo o sedentarismo, alguma passividade e a acomodação, transformando-nos em homens mais domésticos. No fundo esta sede de chegar mais alto ancora num corpo capaz de sonhar e é uma recusa à normalização, à operacionalização e à banalização da Vida. As Montanhas devolvem-nos uma imagem do que Somos e tornam-nos importantes. As Montanhas são “Mães” exigentes e só aqueles que souberem ousar se tornarão seus filhos- Homens e Mulheres capazes de se conquistarem e de realizarem seus mais ousados sonhos. Os que correm loucos atrás dos sonhos ficarão pelo caminho. Os que sobem com passo firme e decidido, cientes dos seus limites mas também do seu potencial e que se mostrarem capazes de ler as janelas de oportunidade que as Montanhas sempre acabam por nos dar, chegarão ao Cume e sentirão essa outra Luz que sempre os tocará. E é com esse brilho no olhar que voltamos das Montanhas. O olhar de quem se conhece e de que assim também é capaz de conhecer e compreender o Outro.

3 - Quando e onde iniciaste a tua formação em alpinismo?

A formação em alpinismo começou com a minha chegada ao continente, vindo dos Açores, em 2006 e coincidiu com a necessidade sentida de encontrar outra família para caminhar. Comecei com a Papa-Léguas e comecei bem. As gentes que encontrei partilhavam do mesmo amor à vida e às montanhas. Depois aderi ao CAAL (Clube de Actividades de Ar Livre), onde fiz formação em Orientação e comecei a integrar as actividades do GDAMO- Grupo de Dinamização de Actividades de Montanha. E as Montanhas foram-se tornando cada vez mais altas. Dos 2.351 m do Pico vieram cumes cada vez maiores. E aconteceram magníficas invernais- uma no Teide (3.718m) e duas subidas ao Jbel Toubkal (4.167m)- ao mesmo tempo que comecei a sentir necessidade de melhorar as minhas competências técnicas em Alta Montanha. Em 2009 na companhia dum amigo fomos para Espanha fazer formação em Alpinismo. E é completamente diferente fazer essa formação em Espanha, com Guias de Alta Montanha, com certificação UIAGM. Infelizmente, em Portugal, não temos nenhum Guia de Alta Montanha e isso é, de facto, um limite. Manuel Macarro Perez, Guia de Alta Montanha UIAGM, deu-nos uma formação exigente e plurifacetada que nos preparou para os desafios de Montanhas mais técnicas. E foi na sequência dessa formação que conseguimos abrir uma nova via na Serra de Béjar, simpaticamente designada por Canal Lusa- um canal de neve e gelo com inclinação de 60º em que utilizámos “un juego de fisureros, 5 friends (pequeños y medianos), 2 anclas de nieve y 5 cintas express largas “. E, depois, com naturalidade, veio o Ararat (5.137m) e o desafio do Stok Kangri (6.152m).

4 - Qual foi o teu primeiro cume?

O meu primeiro Cume foi a Montanha do Pico. Foi uma subida com um grupo de amigos que caminhávamos em S.Miguel e que durante um fim de semana resolvemos rumar à Ilha Montanha e por os pés naquele magnífico Cume. Foi uma subida dolorosa em que carregámos tendas para cima e em que as mochilas andavam pelos 20 kg o que tornou a subida à cratera um enorme desafio. A chegada aos 2.250m e a visão daquela imensa cratera com o Piquinho bem no meio tornou-se uma imagem que teve o condão de me deslumbrar e de me levar a pensar que as Montanhas teriam muito para me revelar. Ver o por e o nascer do Sol do Piquinho tornou-se um espectáculo deslumbrante que, ano após ano, partilhei com amigos.




5 - Para ti, qual foi o cume que mais te marcou?


O cume que mais me marcou como alpinista e como homem foi, sem dúvida, o Cume do Jbel Toubkal em Abril.2011, com 11 amigos, 7 dos quais sem qualquer experiência em neve ou gelo.







6 - O maior desafio?



O maior desafio que enfrentei foi nesta última expedição. Foi a primeira vez que me surgiu o pensamento de que os riscos eram enormes e que poderíamos não voltar todos.

Nunca na minha Vida tinha pensado nisso de uma forma tão intensa. Por isso durante os dias de actividade na Montanha o trabalho dos guias foi imenso, procurando dar sempre ao Grupo a necessária sensação de segurança. O maior desafio foi ver uma companheira a escorregar a mais de 4000 m de altitude, em queda desamparada de costas, já com a cabeça e os braços para baixo e em que tive a percepção clara de que o pior estava a acontecer ali mesmo à minha frente. E perante uma situação destas temos de agir de imediato. E eu decidi para mim mesmo que um companheiro meu não pode morrer sozinho. E atirei-me. Dizem-me, os outros companheiros, que em voo. E apanhei a companheira por uma bota. E o piolet travou a nossa queda. E ali ficámos os dois, presos às Vida por um piolet, à espera de que os outros guias nos recuperassem. E recuperaram. E agora somos um magnífico grupo de Amigos e de bravos 4.000’istas, assim reconhecidos inter-pares, pela Montanha e pelos nossos Amigos de Lá.


7 - Como referi nas últimas publicações deste blog, acabaste de chegar de uma experiência entre amigos no Toubkal, onde todos atingiram o cume. Fala-nos um pouco desta aventura.




Esta aventura no Jbel Toubkal tornou-se um enorme desafio. Levar companheiros sem qualquer experiência de Média/Alta Montanha para uma subida a um Cume de mais de 4000m coberto de neve e de gelo mostrou-se uma empresa merecedora de um grande e exigente trabalho de preparação. Convidei o meu sobrinho, André Ribeiro, de 21 anos, aluno de Desportos de Natureza e Turismo Activo da Escola Superior de Desporto de Rio Maior, com formação académica e prática nesta área, sem experiência em Alta Montanha mas já com o Cume de Gredos no CV, para me ajudar a Guiar o grupo. Convidei, ainda, o meu amigo e companheiro do GDAMO, António Rocha, para também me ajudar a preparar o grupo para esta Expedição. O grupo ficou assim com pessoas com diferentes experiências em Alta Montanha a quem poderiam sempre recorrer podendo a partir daí formar a sua própria ideia sobre a Montanha e as dificuldades que iriam encontrar. Por outro lado, a solidariedade de Vítor Baía, um dos melhores meteorologistas de montanha do Mundo, para com o nosso Grupo, dando-nos a garantia da indicação de uma janela de bom tempo, fazia com que a variável tempo deixasse de constituir outra fonte de incerteza.



O trabalho de preparação foi imenso. Equipámos todo um grupo e realizámos actividades de caminhadas em terrenos de progressão difícil, treinando competências, desenvolvendo laços e moral fortes e criando um Grupo de Amigos.



Com o trabalho de casa feito, o Grupo partiu confiante para a Montanha. Ali recorremos a Guias locais e Amigos de anteriores Expedições, com experiência e qualificações em alta montanha, o que fez com que estivéssemos 13 envolvidos neste desafio de conquista desta Montanha de + 4000m. A formação que demos a 3300 m possibilitou aprendizagens seguras e possibilitou uma bonita subida a Tizi Ouanaomuss (3.684m), com o grupo já a evidenciar bom domínio das técnicas de utilização de bastões e crampons em neve e gelo. Ao mesmo tempo deu-nos também o conhecimento dos diversos elementos do grupo em progressão. Esta actividade de subida aos 3684m e posterior descida e dormida a 3207m facilitou o trabalho de aclimatação e funcionou como treino para o dia de Cume.



E o dia D chegou. Partimos rumo ao Cume. A relação entre companheiros experientes e menos experientes/inexperientes era de 4 para 8 ou seja cada guia teria dois companheiros para si. À medida que as exigências da montanha o ditavam, tornou-se necessário para alguns companheiros passarem a ter atenção individualizada, que ficou a cargo dos Guias locais, Mohamed e Lahsil ficando eu e o André com 3 companheiros cada um. E aí Mohamed, Lahsil e André foram enormes. Mostraram uma generosidade e um saber imensos. Fartaram-se de trabalhar. O Grupo mostrava-se muito forte e extremamente unido. E por tudo isso, quando chegámos à bonita alameda final e o Cume se apresentou de corpo inteiro, as emoções soltaram-se e uma alegria imensa tomou conta de todos nós. Celebrámos o encontro com o Cume como Humanos que se gostam e que se amam entre si e isso foi e é um momento único na Vida de cada um de nós.



Depois a descida foi, também, muito dura, com a neve a chegar às virilhas, mas a cada passo ficávamos mais perto de chegar. E a 200/300 m do Refúgio já éramos saudados pelo staff, recordando-me a expressão de alegria do nosso cozinheiro ao ver-nos chegar sãos e salvos, depois da conquista do Cume, olhando para nós como se de seus filhos se tratasse. E ele já tinha um chá quente e umas bolachinhas para nós. Mais tarde, já em Sidi Chammharouch, o nosso cozinheiro apresentava-nos ao seu filho para que também ele conhecesse os seus “novos” irmãos. E era, de facto, como se de irmãos se tratasse.






8 - Como não poderia deixar de ser, qual foi a tua primeira ascensão à Montanha do Pico, e que memórias guardas da nossa montanha?




Já vos falei na minha primeira subida à Montanha do Pico e das memórias que dela guardo. Numa outra actividade em que levei,já como guia, um grupo de amigos a subir o Pico, pela primeira vez, lembro-me de uma companheira de S. Miguel que já com mais de 58 anos não se imaginava capaz de alguma vez chegar ao Cume e que depois de o ter conseguido, quando as estrelas vieram habitar o Céu, deitada no aconchego do seu saco cama a observar aquele magnífico cenário repleto de Silêncios e de Estrelas. E as lágrimas de felicidade e de alegria correram-lhe pelo rosto até que adormecesse com as Estrelas.



9 - Em conversa no ano passado referiste um projecto de alta montanha para um futuro próximo - o Aconcágua. Fala-nos um pouco deste projecto e de outros que tenhas em mente.



O projecto Aconcágua era para ser realizado em Janeiro de 2011 mas por impossibilidade do meu companheiro não quis avançar para uma montanha difícil com quem não conhecia. Fiquei à espera dele e como a montanha não se vai embora talvez 2012 seja a altura certa para realizar esse projecto. Em Agosto de 2011 partirei com um grupo de espanhóis para os Himalaias, podendo acontecer o retomar do projecto de Agosto de 2010 de subida do Stock Kangri (6.137m), inviabilizado o ano passado pelas inesperadas e gigantescas cheias de Leh.




10 - Deixa-nos algumas palavras aos leitores deste blog que, tal como o próprio autor, sonham com as grandes montanhas e as expedições aos grandes espaços naturais por esse mundo fora.


O que aprendi com as montanhas pode-se resumir um pouco no célebre pensamento do grande alpinista Anatoli Boukreev:



“ Mountains are not Stadiums where I satisfy my ambition to achieve, they are the cathedrals where I practice my religion...I go to them as humans go to worship. From their lofty summits I view my past, dream of the future and, with an unusual acuity, am allowed to experience the present moment...my vision cleared, my strength renewed. In the mountains I celebrate creation. On each journey I am reborn.”





Ou seja as Montanhas terão que ser vistas como Catedrais onde nós Humanos praticamos a nossa mais íntima religião em contacto com os outros e com essa outra realidade acima de nós que é a nossa própria Montanha. E para que a magia aconteça é preciso estarmos na companhia de um grupo de Amigos que seja assim como uma família de irmãos muito unidos e em que sempre funcionará a máxima um por todos, todos por um. Sem Amigos não se sobem Montanhas,



Na Montanha ganhei Amigos mas também perdi “amigos”. Com os Amigos subo QUALQUER Montanha. Com “amigos” nunca mais subo Montanhas. As Montanhas só valem mesmo a pena se forem subidas por Amigos e com Amigos.



As Montanhas sobem-se pouco a pouco. Com humildade. Com o Outro ! E assim Ela nos receberá. A Todos. De braços abertos. Porque fomos simples. Humanos, humildes e Ousámos Sonhar e Chegar Mais Alto e Mais Além.



E como dizia Torga, “ O que é bonito neste mundo, e anima, é ver que na vindima de cada sonho fica a cepa a sonhar outra aventura. “




Muito Obrigado Jorge por esta fantástica entrevista. Um grande Abraço de Cume!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Primeira subida ao Pico com neve de 2010

Pois é, na passada Quinta feira (18 de Fevereiro) fiz algo que já não fazia há alguns anos: Uma subida ao Pico com neve!

O tempo estava quase perfeito, estávamos na crista de uma alta-pressão, e aproveitámos a janela de bom tempo para dar lá um saltinho.

Tudo começou na quarta-feira, quando o meu irmão, que tem estado cá com a minha cunhada de férias, me sugeriu que, caso o tempo estivesse bom no dia seguinte, fossemos pela montanha acima até à neve. Claro que disse logo que sim! Então fiz uma chamada para o meu meteorologista de confiança - o Rui Medeiros e, após alguns minutos a consultar cartas meteorológicas e imagens de satélite recebi a mensagem dele: "manda-te para cima! amanhã vai estar bom pelo menos até às 6 da tarde"

Mais uma chamada, desta vez para os irmãos do Rui - Duarte e João- e já tínhamos o nosso grupo feito!

Na quinta feira de manhã o Pico ainda nos fez algumas caretas, mostrando um chapéu de abas bem largas, que depressa se dissipou, mas não foi o suficiente para nos demover da nossa aventura!

A subida iniciou-se por volta das 11:00, e começámos a encontrar gelo, formado na noite anterior, logo após os primeiros metros de trilho. Fomos nas calmas, "pole pole" como nos dizia o guia no Kilimanjaro. O objectivo era irmos até onde desse, e passar um bom bocado na neve.

Começámos a encontrar os primeiros "bardos" de neve a partir dos 1400m. Daí para cima foi-nos aparecendo cada vez mais neve. Era uma neve escorregadia, já tinha derretido bastante no dia anterior, voltado a gelar durante a noite, e já começava a derreter de novo, por isso tivemos de redobrar os cuidados à medida que fomos subindo.


Como já referi, o objectivo era chegar até onde desse... Deu para chegar à Cratera! Demorámos 4 horas, mas não tínhamos grandes pressas. Pelo caminho foram voando bolas de neve, piadas e tolices e as máquinas fotográficas tiveram pouco descanso!




O Piquinho estava tímido, escondido por uma neblina ténue, mas muito teimosa e que nos estragava as hipóteses de tirar fotografias nítidas do cume. Ao menos as formações de gelo na parede da Cratera eram fantásticas, o que já dava para animar um pouco.




Lanchámos e esperámos só mais um pouco na esperança que a neblina se dissipasse... e tivémos sorte! Lá ficaram as máquinas fotográficas sem descanso outra vez!



Era altura de descer, já estávamos há muito tempo lá em cima, o frio já se fazia sentir, e de que maneira! A hora já estava a ficar avançada também, já passava das 3 e ainda tínhamos a descida sobre aquela neve escorregadia pela frente.

Após 3 horas de descida, escorregadelas e muita galhofa lá chegámos ao fim desta pequena aventura.

Para a maior parte do grupo esta já não era a sua primeira subida com neve, mas para a minha cunhada foi a primeira subida ao Pico, e ainda por cima com neve! Para mim deverá ter sido a vigésima subida com neve, mas desde 2005 que não subia de inverno. Por mais subidas que faça com neve, em todas fico surpreendido pelas formações de gelo e pela Cratera cheia de neve!

Espero que este inverno hajam mais janelas de bom tempo como esta, para poder fazer mais algumas subidas e captar imagens como estas!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Avistamento de aves raras (actualização)

Após mais uma longa ausência, volto ao blog para actualizar o último post, sobre o avistamento de uma Skua, que tinha identificado erradamente como Stercorarius antarctica - (Moleiro sub-polar).



Após conversações com algumas pessoas muito mais entendidas deste assunto que eu, chegou-se à conclusão que a ave que fotografei é um Moleiro Parasítico - (Stercorarius parasiticus), com bastante desgaste e descoloração nas penas, provocados pelos ventos fortes e pelo sol.

Quero agradecer ao João Quaresma e ao
Staffan Rodebrand pela grande ajuda na identificação desta ave.

Entretanto já fiz mais dois avistamentos, mas nestes casos não tinha a máquina fotográfica comigo: Uma Garça-Boieira - (Bubulcus ibis), junto ao Hiper Compre Bem, na Madalena e uma Garça-Branca-Americana - (Egretta thula) na zona da piscina da Barca.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Trilho da Montanha do Pico finalmente marcado com GPS de precisão

Nos ultimos dias decorreram os trabalho de georeferenciação e marcação do trilho oficial da Montanha do Pico.



Estes trabalhos foram efectuados pelos investigadores da Universidade dos Açores Eng.º António Trota, Eng.ª Rita Rodrigues e Dr Jun Okada, sendo acompanhados na Montanha pelo bombeiro Jaime Sousa (apoio logístico, 2º guia) e por mim (guia principal).



Para a elaboração destes trabalhos foi instalada uma estação fixa junto à Casa da Montanha e activado o ponto instalado anteriormente junto ao Cabeço das Cabras.



Na Terça-Feira procedeu-se à instalação do ponto da estação fixa da Casa da Montanha e identificação do ponto do Cabeço das Cabras, debaixo de condições meteorológicas muito severas.



Na Quarta-feira foram activadas as duas estações na base da Montanha e procedeu-se à subida à Montanha pelo trilho oficial, desta feita com condições meteorológicas excelentes.



Após 4 horas de subida foi alcançado o cume e lá foram efectuadas medições com os aparelhos de GPS de precisão, de modo a se obter as coordenadas e altitude exactas da Montanha.



A descida decorreu sem problemas de maior, tendo sido marcados também 2 ramificações alternativas do trilho utilizadas pela maior parte dos guias.



Com estes trabalhos foram obtidos dados de grande importância para a nossa Montanha, como. por exemplo, a altitude correcta da Montanha e o comprimento do trilho.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Exposição de Pintura - Festas de Santa Maria Madalena 2009

A fugir um pouco ao assunto das montanhas e aventuras dos ultimos posts, aqui vai um post sobre outra das minhas paixões: a pintura.
Este ano finalmente consegui montar a minha exposição de pintura, pelas festas de Santa Maria Madalena.
Foram a exposição 4 telas, todas elas inspiradas em fotografias minhas, tiradas nos Açores, claro!

"Montanha do Pico ao amanhecer" - Esta tela foi inspirada numa foto que tirei do pátio da minha casa, numa magnífica manhã de verão. Foi feita por causa de uma aposta - apostei com uma amiga que conseguia pintar uma tela em menos de 1 hora... - começei a pintar e, 50 minutos depois, o resultado foi este.
"Pena" - Esta tela foi inspirada numa foto que tirei quando fiz o trilho da descida à Lagoa do Fogo, na ilha de São Miguel, com o meu irmão mais velho, o Carlos Medeiros (mais conhecido na blogosfera como Xinando - http://xinando-cartoon.blogspot.com/ ). Esta era uma das centenas de milhar de penas de gaivota que se podiam encontrar por lá, que, ainda retendo algumas gotas de orvalho, me chamou a atenção para tirar uma foto.

"Milhafre" - Esta é a "Jóia da Corôa" da minha exposição (e talvez de toda a minha "carreira de pintor"). Esta tela foi inspirada numa foto que tirei a um milhafre, enquanto o segurava na mão. Ele estava ferido e acabou mesmo por sucumbir aos seus ferimentos. Isto mexeu um bocado comigo e pintei esta tela como uma "homenagem" ao bichinho. É uma tela com 50 x 50cm e foi pintada num só dia. Quando começei os esboços estava a planear apenas pintar algumas bases e deixar para ir pintando quando tivesse tempo... Fiquei tão empolgado com os resultados dos esboços que pintei mais um pouco, e mais um pouco... acabei por ficar num estado em que não consegui descansar enquanto não a acabei.
Foi exposta mais uma tela (Guindaste da Areia Larga), mas não tenho nenhuma foto dela comigo neste momento. Quando tiver oportunidade publico aqui.
Bom Fim de Semana!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Açores no Topo do Mundo" - Começa a Aventura

Ontem começou a grande Aventura de Luís Bettencourt, com a ascenção ao cume da Montanha do Pico, acompanhado de alguns amigos.

Apesar de as condições meteorológicas não serem as ideais, a subida foi um sucesso. Tendo iniciado a subida por volta das 12:30, demorámos cerca de 2:30h a chegar à cratera, onde "pesticámos qualquer coisa". Depois iniciámos a subida até ao cume do Piquinho, que alcançámos cerca das 15:30.

Uma vez no cume, foi desfraldada a bandeira dos Açores que acompanhará o alpinista Jorgense nesta aventura, e que ja o tem acompanhado em todas as outras, como a travessia do Sahara a pé em 2004 e a trilha inca, no Peru em 2007.

A descida decorreu sem incidentes, e levámos cerca de 2:15 a alcançar a Casa da Montanha, desde que saímos do cume.

A próxima aventura será o Kilimandjaro, o Ponto mais alto de África, já em Novembro, onde terei o enorme prazer e orgulho em ser o companheiro de expedição do Luís.

Nesta ascensão ao cume da Montanha do Pico, não posso deixar de salientar o esforço e valentia do senhor Ramiro, que não desistiu e chegou ao cume conosco, apesar das dificuldades que sentiu na subida.

Que venha a próxima aventura!

(ainda não tenho as fotos desta ascenção, mas publicarei algumas assim que me for possível)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A Bandeira Açoreana nos Topos do Mundo


Começa já no próximo dia 9 de Setembro mais um grande feito para o alpinismo português e , especialmente, açoreano.


Desta feita é o alpinista Luís Paulo Bettencourt que se lança numa expedição com o objectivo de fazer os 7 picos, ou seja, o ponto mais alto de cada continente, e defraldar a bandeira dos Açores em cada um dos cumes que mais se elevam em cada continente.
Este projecto, entitulado "Açores no Topo do Mundo" nasce de um sonho antigo do Alpinista, que sempre "teve o bichinho" pela aventura, tendo constuído o seu primeiro arnês aos 9 anos, com algumas fitas que chegavam a São Jorge a segurar as paletes de cimento.
O Luís é dono de uma das empresas de animação turística mais dinâmicas a nível Açores, e quiçá a nível do país, onde organiza expedições de Canyoning, passeios de barco/whalewatching, trilhos pedestres de vários níveis de dificuldade, escalada, entre outras actividades de aventura.
Assim, este projecto inicia-se e acaba com a ascencão ao "topo de Portugal", a nossa Montanha do Pico, e é já no próximo dia 9!
Seguem-se o Kilimandjaro (5892m - África - Novembro 2009), o kosciuszko (2228m - Oceanía - Janeiro 2010), o Vinson (4892m - Antártica - Fevereiro 2010), Elbrus (5642m - Europa - Junho 2010), Mackinley (6194m - América do Norte - Setembro 2010), Aconcágua (6962m - América do Sul) e Everest (8844m - Ásia - Maio 2011). Em Junho de 2011 cá esperamos pelo Luís para a sua ascenção ao Pico que encerrará este projecto.
Como amigo pessoal do Luís, posso atestar que ele tem as capaciades necessárias a esta proeza e levará o nome dos Açores a todos os cantos do mundo com o grande orgulho que ele tem em ser açoreano.
Terei também o enorme prazer de acompanhar o Luís nas ascenções ao Pico e, em princípio, em algumas das restantes do projecto, tendo sido convidado por ele, pois, como ele disse, esta é uma expedição para levar o nome dos Açores a todo o mundo, e ele gostava de integrar elementos açoreanos à expedição.
Fica aqui o meu desejo de muita sorte para este projecto, e por cá te espero Luís, é já de quarta feira a uma semana que a aventura começa, e, citando as tuas próprias palavras, vais "curtir milhões" este projecto. Um Abraço

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Mais Um Nevão na Montanha do Pico!

Pois é!

Quando já todos se preparavam para o verão, eis que a nossa montanha nos prega uma partida: durante esta noite cobriu-se de neve!

É uma situação um pouco inesperada para esta altura do ano, mas não inédita. Já em anos anteriores aconteceu, Por exemplo, no dia 1 de Maio de 2002, fiz ski na cratera da Montanha, e havia bastante neve por lá.

Vou tentar tirar fotos deste nevão durante o dia de hoje e coloca-las aqui, mas a nossa montanha está bastante tímida hoje. Veremos se temos sorte! :)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

João Garcia cada vez mais perto dos 14 Picos do Mundo!


Como ja referi no primeiro post deste blog, não sou apenas um amante da natureza, vivo dela, e quem me conhece sabe da minha grande paixão pela montanha. Esta paixão tem a sua origem na montanha do Pico, que "tenho no meu quintal", e na qual exerço um dos meus hobby's que me dão mais prazer: ser guia de montanha.

Posto isto não é de surpreender que uma das pessoas que mais admiro é o alpinista João Garcia, que não só é o Português com o currículo mais impressionante nesta área, mas também um alpinista da elite mundial, estando no grupo restrito de pessoas que conseguiram escalar o "tecto do mundo", o monte Everest pelo lado Norte e sem recurso a oxigénio nem a sherpas (carregadores de altitude), embora a um custo elevado, com a morte do seu companheiro de cordada e grande amigo Pascal Debrouwer e uma série de amputações resultantes da forte exposição a temperaturas extremas e à falta de oxigénio, que causa um "engrossamento" do sangue, provocado pelo aumento da concentração de glóbulos vermelhos (células sanguíneas responsáveis pelo transporte de oxigénio).

Mas o impressionante currículo deste alpinista não começa no dia 18 de Maio de 1999 no cume do Everest. João Garcia conseguiu o cume do seu primeiro "8000" em 1993, escalando o Cho Oyo (8201m) por uma via que, tendo sido iniciada por uma expedição polaca, nunca tinha sido conseguida na totalidade. Nesse mesmo ano fez a sua primeira tentativa ao cume de outro "8000" - o Shishapangma (8013m)

Antes do Cho Oyo João Garcia ja tinha escalado importantes montanhas, como o Monte Branco (4807), o Matterhorn (4478m), entre outros, tendo se iniciado em alta montanha nos Alpes desde tenra idade.

Em 2006 inicia-se o projecto "À Conquista dos Picos do Mundo" com a ascenção ao Kanchenjunga (8586m), no qual o alpinista pretente entrar para o grupo restrito de pessoas que ascenderam às 14 montanhas mais altas do mundo, ou sejas as 14 montanhas com mais de 8000m existentes no nosso planeta, até 2010.

Já lá vão 11!

Tendo ascendido este ano com sucesso ao cume de mais dois "8000" (Makulo - 8463m e Broad Peak - 8047m), o seu projecto segue bom rumo,estando mais duas ascenções programadas para o próximo ano (Manaslu - 8163m e Naga Parbat - 8125m) e o 14º pico para a primavera de 2009 (Annapurna - 8091m).

João Garcia está também próximo de alcançar outra façanha: atingir os picos mais altos dos 7 continentes. Para isso falta-lhe apenas escalar o monte Kosciuszko (2228m) na Autrália.


Muito fica por dizer sobre este grande Português, pois o seu currículo é deveras impressionante, mas conclúo o post dizendo que felizmente ja tive o prazer de conhecer o João Garcia em pessoa, e é realmente uma pessoa que surpreende, não só pela humildade e simpatia, mas também, pela paixão com que fala das "suas montanhas"


Parabéns amigo João por tudo o que ja conseguiste até aqui e boa sorte para o que o futuro te trouxer!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Biologia da Montanha do Pico 1

Flora

Os Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde pertencem, em termos biogeográficos, à região da Macaronésia*, sendo o nosso arquipélago o que se constitui pelas ilhas mais recentes e isoladas do Atlântico Norte. Devido a este facto possuem um património natural único, marcadamente oceânico, que inclui grandes valores florísticos.
Muitas espécies estão relacionadas com as famílias dominantes na flora europeia Terciária, sendo por isso consideradas verdadeiras relíquias, sendo algumas até consideradas “fósseis vivos”.Aquando da formação das primeiras ilhas dos Açores (há cerca de 8 milhões de anos), o Manto Terciário Laurifólio** já estava extinto (há 25 milhões de anos as primeiras Eras Glaciares eliminaram a vegetação subtropical laurifolia de toda a Europa, com excepções pontuais, tendo a Glaciação de WURM*** sido a ultima).




Zona biogeográfica da Macarronésia



O nosso arquipélago não teve acesso directo ao manto laurifólio original, mas sim a formações já "filtradas" pelos resntes arquipélagos desta região, que serviram de "pontes de aclimatação" entre o continente e os Açores.



A presença destas espécies no nosso arquipélago, sendo ele bastante mais recente que as restantes zonas desta região e posterior à glariação de WURM, é explicada por diferente teorias:



- Teoria das Jangadas - as espécies viajaram em "jangadas" de troncos ou outros materiais flutuantes, e, depois de "encalharem" na nossa costa, disseminaram-se pelas ilhas;



- Teoria das Aves - as sementes viajaram dentro do papo de aves migratórias, que ao parar para descansar nas ilhas, as expeliram nas suas feses;



- Teoria do Vento - As sementes mais leves são trasportadas pelas correntes aéreas e acabam por cair nas ilhas



- Teoria dos Icebergs - as sementes viajaram em Icebergs, provinientes de grandes blocos de gelo que se soltaram da massa continental, que acabam por encalhar na costa e derreter, libertando as sementes. Esta é uma teoria com pouco fundamento, tendo em conta que a glaciação de WURM é anterior ás ilhas e não há quaisquer registos de ocorrência de Icebergs nas nossas latitudes.



A flora vascular dos Açores é constituída por cerca de 1000 espécies. Cerca de 300 são autóctones e destas cerca de 70 são endémicas. Cerca de 700 plantas foram introduzidas pelo Homem.



Cada uma destas plantas está adaptada a determinadas condições ecológicas, ou seja, podem ser plantas costeiras, de média altitude ou de elevada altitude, havendo ainda algumas com uma grande amplitude ecológica, como a Erica azorica, por exemplo, que surge desde a linha costeira até aos 1800m de altitude.




Aspecto da vegetação a cerca de 1350m de altutide na Montanha do Pico (Cedro-do-Mato - Juniperus brevifolia; Urze - Erica azorica; entre outras)

Nos próximos posts falarei mais específicamente das plantas encontradas na Montanha do Pico.

*Macarronésia: Região biogeográfica, caracterizada pela presença de florestas de Laurissílva (Louro e Cedro), que inclui os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde.


** Manto Terciário Laurifólio: Cobertura vegetal que se encontrava presente na Europa Ocidental no período Terceário, tendo sido extinta aquando da última era glaciar. Este era composto essencialmente por florestas de Louro e Cedro (floresta Laurissílva).

*** Glaciação de WURM: Designação dada à última era glaciar ocorrida na Terra, que se iniciou há cerca de 24.000 anos e terminou à cerca de 10.000 anos.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Geologia da Montanha do Pico 2

Continuando o post anterior, aqui vão algumas fotos a suportar a teoria das 3 fases de formação da Montanha do Pico:


Figura 1 - Zona da Cratera Fóssil (Quebrada da Terça), antiga Cratera-Poço (Pitt-Crater) formada na 1ª fase de formação da Montanha.





Figura 2 - Cratera-poço (Pitt-crater) formada na 2ª fase de formação da Montanha (actual cratera da Montanha)




Figura 3 - Pico-Pequeno (ou Piquinho) - pequeno cone formado na 3ª fase de formação da Montanha.




Figura 4 - Vista do interior da Cratera, com a fissura eruptiva ocorrida no final da 3ª fase de formação da Montanha assinalada.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Geologia da Montanha do Pico

A Montanha do Pico constitui um edifício vulcânico com altura de 2351m acima do nível do mar e cerca de 3500m acima da plataforma oceânica dos Açores (Nunes, J.C. 1999), o qual se designa por Estratovulcão*, muito semelhante ao Vulcão do Fogo em Cabo Verde, ao Teide nas Canárias, Monte Fuji no Japão e ao Mayon nas Filipinas, sendo o terceiro maior do Oceano Atlântico. Esta apresenta um grande número de formações geológicas características deste tipo de edifício vulcânico, bem como uma grande variedade de tipos de basalto, que variam pelas suas características morfológicas e químicas.
A montanha foi então formada por várias erupções, as quais lançaram grandes escoadas lávicas que acabaram por formar a zona Oeste da ilha, tendo, no entanto, havido também algumas erupções adventícias nos seus flancos, geralmente de natureza estromboliana. Como resultado destas erupções adventícias podemos encontrar na montanha várias formações, como os “cabeços”, das quais resultaram diversos níveis de piroclastos.

Tendo iniciado a sua formação há cerca de 240 000 anos, a edificação da montanha processou-se por fases, sendo, assim, este tipo de vulcão designado de poligenético.

Assim, podemos dividir a formação da Montanha do Pico em 3 fases:


o Fase I – Edificação de um grande cone vulcânico, devido a uma grande actividade na parte central do vulcão, tendo atingido dimensões semelhantes à do vulcão actual.
Esta fase termina com o colapso do topo do vulcão, originando uma cratera-poço* com cerca de 800m de diâmetro a uma altitude de cerca de 2050m.

o Fase II – A actividade vulcânica no topo do vulcão dá-se a partir de fissuras localizadas na cratera, originando extensos derrames lávicos pahoehoe*, que preenchem toda a cratera, e aumentam a altura do vulcão.
Esta fase termina novamente num colapso do vulcão originando uma cratera à cota aproximada de 2250m, deslocada para NNE.

o Fase III – Formação do cone do Piquinho, no interior da cratera actual, deslocado para NE, emitindo escoadas lávicas sob a forma de “lavas em tripa”* que preenchem grande parte da cratera. Esta lava originou um lago de lava na cratera, tendo transbordado nos bordos E e SE da cratera. Esta fase termina com o aparecimento de uma fissura eruptiva, no interior da cratera, emitindo essencialmente piroclastos.


Introdução

Os Açores são um arquipélago de 9 ilhas de origem vulcânica que compreendem um grande valor em termos paisagísticos, biológicos e geológicos.
Situados a meio do Atlântico, são verdadeiras joias, que tentarei dar a conhecer neste blog.
Embora este blog se destine sobretudo a mostrar o que de melhor temos no Pico, muitos outros temas serão cá discutidos, a nível regional, e até nacional, caso ache relevante para o blog.
Este será então um espaço em que serão expostos diversos temas, todos de carácter ambiental, relativos à Ilha do Pico, sendo dado um ênfase especial à Montanha do Pico, ponto mais alto de Portugal e característica dominante da paisagem do grupo central.
As criticas construtivas serão benvidas, sendo qualquer tipo de comentário de caríz bairrista ou injurioso recusado. Este é um blog de um amante da Natureza para os amantes da Natureza.
Bem haja e obrigado pela visita!

Valter Medeiros